No trem de Paranaguá

 

O dia mal tinha amanhecido e a poderosa Vulcan já estava na plataforma de embarque, aguardando seu vagão especial. Uma das jornadas mais inusitadas para a vida de um motociclista está para começar. 

 


 NA FERRORODOVIÁRIA CURITIBANA


 

Ferrorodoviária

 

É da Ferrorodoviária de Curitiba que parte o famoso trem turístico que vai até a cidade de Paranaguá, no litoral paranaense. Na verdade o trem funciona diariamente, óbvio que com bem menos dos seus 21 vagões dos feriados e finais de semana. 

 

Ferrorodoviária

 

A composição completa foi montada ali mesmo, na plataforma, enquanto nós e as motos aguardávamos impassíveis. Vagão ia… locomotiva vinha… e o quebra-cabeças ferroviário ia sendo montado aos poucos. Por fim o vagão das motos se fez presente em nossa frente.  

Trem de Paranaguá

 

Uma funcionária, que era a chefe geral de todo o comboio, pessoalmente nos recepcionou e cuidou de nossas máquinas. Com ajuda de outros funcionários (e nossa), colocou as motos no vagão especial e as prendeu com firmeza em lugares apropriados. 

Trem de Paranaguá

 

A empresa Serra Verde Express exige, para tal transporte, que o piloto traga consigo dois pares de tirantes, sendo pelo menos um desses pares com catracas. Como o trem balança bastante no percurso, a preocupação com a segurança é rigorosa. 

Trem de Paranaguá

 

O vagão é adaptado, também, para deixar guardado nossos capacetes, jaquetas, etc. Nem mesmo as “malas” precisam ser levadas conosco. Melhor assim, ficamos livres e soltos para apreciar a viagem que, embora curta, levaria mais de 3 horas. Ainda bem.  

Trem de Paranaguá

Cada um dos 21 vagões que compunham o comboio daquele dia tinha um formato distinto, desenhos exclusivos e pertenciam a uma categoria diferente: Econômica, turística, executiva e camarotes para quatro ou oito pessoas, além do carro corta-fogo, onde viajariam as motos. O trem pode carregar mais de 1.100 passageiros.  

 

Trem de Paranaguá

 

Todos esses vagões tem um “serviço de bordo” personalizado, com lanches diferenciados, acentos em vários formatos e acabamentos, e guias extremamente simpáticos. Para os estrangeiros os guias podem ser bilíngues ou trilíngues.  

Ferrorodoviária

 

Aguardamos sozinhos na plataforma enquanto o comboio completo era formado, e presenciamos a “abertura” das portas para os turistas que viajariam até o litoral, todos com seus tickets em mãos contendo o número do vagão e da poltrona que ocupariam. 

 


 COMEÇANDO A VIAGEM


 

Ferrorodoviária

 

Com todos embarcados o apito soou longo. As irregularidades dos trilhos determinam o cadenciado dos balanços dos vagões. Com baixa velocidade o trem foi deixando a estação, caminhando literalmente pelas ruas centrais de Curitiba. 

Túnel número 13

 

Passamos pelo Jardim Botânico, pelo Autódromo e fomos caminhando em direção da Serra do Mar, rumo a Morretes. Em todo esse trajeto urbano e no primeiro e mais longo túnel (o nº 13), viajamos praticamente “fora do trem”, ou seja: em pé na porta traseira, junto com a Chefe que nos orientava. 

Represa em Piraquara

 

De pouco em pouco a encarregada nos mostrava as belezas do lugar e assim fomos  até uma represa na periferia da cidade de Piraquara. No centro das águas podia-se ver uma enorme chaminé de uma indústria que ficou submersa. Lindas imagens capturamos.  

Vagão de passageiros

A partir daí fizemos o que ninguém faz: Percorremos toda extensão do trem, saindo do último vagão em direção do primeiro. Visitamos todas as classes  que pareciam mundos diferentes. No último vagão, que era o turístico no dia da nossa viagem, os bancos eram estofados, as janelas amplas e passageiros atentos e curiosos.  

 

Turistas estrangeiros

Nas classes econômicas percebemos grande alvoroço com gente tagarelando, crianças pulando e guias orientando para o que não se devia fazer. Na turística dos estrangeiros havia grande expectativa nas palavras do guia e tudo fluía com bastante calma e organização. Grupos de japoneses eram os que davam melhores exemplos de cidadania.  

 

Esportistas

Nos vagões destinados aos passageiros esportistas (alpinistas, montanhistas, mochileiros, etc) o clima era bastante calmo e não prestavam muita atenção nas palavras do guia. A maioria estava na condição de passageiros que desejam chegar rápido a um destino, que quase certo era a Estação do Marumbi.

No camarote

 

Finalmente chegamos nos vagões de luxo, com seus camarotes fantásticos. Alguns desses vagões tem cabines para quatro pessoas, outros para oito. Fomos alojados num dos maiores e mais bonitos do trem, com bancos espaçosos e mesa de trabalho ao centro. 

Nos camarotes

 

Realmente estar num desses vagões especiais tem suas vantagens, e dá até para se sentir um  como o Harry Potter indo para a escola de magia. Além do lanche sofisticado a maior vantagem é a possibilidade de ver as paisagens nos dois lados do trem.  

Camarote

A beleza do camarote disputava com a da natureza do nosso lado. Todo feito em madeira de lei envelhecida, com muitos quadros, cortinas, espelhos e arandelas aconchegantes, sem falar nos metais dourados das portas e utensílios, fazia com que apreciássemos a viagem da melhor maneira possível.   

 

Turistas no trem

Nos vagões tradicionais, os passageiros que se sentem privilegiados por estar na direita ou esquerda, mudam rapidamente de opinião na viagem, pois em cada lado do trem mil encantos descortinam-se minuto a minuto, ficando sempre gente “do outro lado” amontoando-se sobre nós, para olharem pelas nossas janelas.  

 

 


 A HISTÓRIA DA FERROVIA


 

História da ferrovia

A estrada de ferro que liga Curitiba a Paranaguá é considerada a maior obra da engenharia férrea nacional e uma das mais ousadas do mundo. Com essa frase Cristian Barbosa expõe o assunto em seu blog. E não é para menos, muitos historiadores reportam sobre essa magnifica obra da engenharia com superlativos dos mais diversos. 

Ferrovia antiga

Quem já passou pela Av. Rebouças em São Paulo, ou por tantas outras ruas e avenidas com o mesmo nome em todo o Brasil, muitas vezes não sabe que foi esse mesmo engenheiro o responsável pela desafiadora obra de desbravar uma serra inóspita, para conduzir um trem por ela.  

 

André e Antonio Rebouças

Antonio Rebouças e seu irmão André  apresentaram o ousadíssimo projeto à D. Pedro II. O projeto era apenas entre Curitiba e Antonina. Só depois, já na fase de execução da obra, foi mudado o destino para Paranaguá. 

O que muita gente não sabe, também, é que os irmãos Rebouças, assim como Machado de Assis, José do Patrocínio, Cruz e Souza eram descendentes de escravos, todos negros ou mulatos. André foi um dos representantes da pequena classe média negra que conseguiu se destacar no II Reinado, e uma das vozes mais importante no fim da escravatura. Se exilou por conta própria do Brasil junto com D Pedro II, após a Proclamação da República. 

 

Trem de Paranaguá

 

A construção era considerada impraticável por muitos engenheiros europeus consultados na época, mas está aí, firme e desafiadora, nos revelando a capacidade do ser humano e as belezas da natureza que Deus criou. 

 

Funcionários desbravadores

O início da construção de deu em 1880 e foram utilizados cerca de 9000 homens que viviam em Curitiba ou no litoral paranaense. Compunham-se na maioria por imigrantes alemães, poloneses, italianos e africanos, esses últimos escravos alforriados, já que D Pedro não usava mão de obra escrava para si ou nas obras públicas. 

Ferrovia em construção

Mais da metade desse contingente morreu durante a construção, devido a precariedade da segurança da época. O próprio Antonio Rebouças faleceu anos antes do início da construção, restando à André convencer as autoridades da sua viabilidade, já que oficialmente considerada impossível de ser concluída. 5 mil pessoas mortas em 5 anos dá-nos a assombrosa média de 3 mortes por dia. 

Morretes antiga

 

O primeiro construtor de uma empresa inglesa, Giusepe Ferrucini, imigrante italiano radicado na região, desistiu no trecho plano ao nível do mar, depois de concluir apenas 45 km do trajeto, entendendo impossível sua conclusão naquela serra ingrime e selvagem.  

Pontes inglesas de aço

A conclusão da obra foi feita por um engenheiro brasileiro de 33 anos de idade, de nome Teixeira Soares, cinco anos depois de seu início. Uma mega vitória para a engenharia brasileira, feita com com pontes do mais puro aço trazidos da Inglaterra e montadas persistentemente no local. 

 

Casa do Ipiranga

Hoje, passados mais de 130 anos de sua construção, o abandono é bastante visível nas casas de funcionários e administradores espalhadas pelo percurso. A famosa Casa do Ipiranga, que outrora foi tida como expoente maior do estado, está completamente destruída.

 

 


 “VOANDO” NA SERRA


Ponte São João

Por falar em ponte de aço a maior delas estava agora a nossa frente. A ponte São João atravessa um desfiladeiro numa distância de 55 metros que parecem intermináveis. A vista da serra com suas montanhas sinistras é de cair o queixo. 

 

Viaduto Carvalho

E é justamente aí que a estrada vai tomando um ar de aventura sem par. Já experimentou voar de avião? Sim?  E de Trem?  Essa é a sensação ao transpormos o “Viaduto do Carvalho”, que passa na encosta de um paredão imenso, a centenas de metros do chão. O trem dá uma diminuída da velocidade nesse ponto estratégico do percurso. 

Viaduto Carvalho

 

Nesse trecho os ouvidos tampam; muitas pessoas mal respiram; O silêncio é assustador e o ruído da Terra parece se fazer ouvir aos nossos pés. Há um misto de respeito e temor. Todos querem olhar pelas janelas, mas muitos voltam rápidos e outros sequer se arriscam. 

Trem de Paranaguá

 

Só se ouve as pequenas batidinhas das rodas do trem nas emendas dos trilhos, e um silêncio quase mortal. Mag-ní-fi-co!!!. Feito o contorno da montanha o comboio volta a sua velocidade e ritmo normais. 

 

Trem de Paranaguá

A viagem continuava lenta e esperávamos mesmo que continuasse assim, pois dava para aproveitarmos mais das belezas que nunca paravam de se mostrarem à nós. Revezávamos para fotografar entre a ampla janela de nosso camarote e a do corredor, do outro lado, dependendo da parte do trajeto onde estávamos. 

 

 ACOMPANHE UM TRECHO DO PERCURSO

  


 NO MARUMBI


 

Estação Marumbi

Depois de muito êxtase nessa viagem, verificamos que estávamos chegando em “algum lugar”. Estávamos parando sim: na Estação do Marumbi, que fica exatamente no Parque Estadual do Pico do Marumbi, do qual tratamos de esmiuçar com detalhes no nosso projeto De Vulcan no Marumbi. Muitos passageiros desceram nesta estação

 

Complexo do Marumbi

 

De qualquer maneira é impressionante ver todo aquele complexo de montanhas ali, na nossa frente. A beleza do Olimpo, que se sobressai entre os demais picos do complexo, é de tirar o fôlego. Centenas de câmeras fotográficas são sacadas pelas janelas nessa hora.  

Trem na serra

 

Falando em janelas, curte-se muito, além do visual das montanhas azuis de Morretes, ver aquela enorme “lombriga” de ferro serpenteando entre as folhagens das margens, embora os guias quase percam os cabelos recomendando-nos: cuidado, não ponham a cabeça para fora do trem, etc. 

Trem de Paranaguá

 

Estávamos agora na parte baixa da estrada, chegando ao nível do mar. Saímos de Curitiba, com uma altura de 934 metros, para Morretes, com cerca de 8 metros. O local já era plano e nossos fôlegos retornaram. Era aguardar o nosso destino que não tardaria.

 


 EM MORRETES


 

Morretes

Não iríamos até Paranaguá e Morretes já estava à vista. Reorganizamos nossos equipamentos de mãos e ficamos prontos para “descer”, tão logo o trem parasse na pequena cidade. Dessa vez era o contrário: seríamos os últimos a deixar a estação, pois primeiro descem os passageiros, para só depois retirarmos as motos, com ré no trem.   

Estação de Morretes

 

Aguardamos ansiosos na estação o retorno do vagão, longe de nossas vistas. Enfim as motos foram descarregadas. Já estávamos com saudades de seu ronco sob o acento e num piscar de olhos deixamos a estação para curtir a cidade, em duas rodas. 

Descarregando a Vulcan

 

O destino agora era outro e rumamos ligeiros para a Pousada Itupava que nos aguardava, e que ficava a uns 10 km da Estação. Só depois de tudo ajeitado retornaríamos ao centro de Morretes, para cuidar de nosso estômago no Terra Nossa.

Litorina noturna

Viajar pela Serra Verde Express é um prazer a parte e a empresa mantém empreendimentos desse porte em todo o país. Segundo especialistas do ramo, o passeio noturno feito com a Litorina da empresa é um dos três mais luxuosos do mundo. É pagar para ver. 

 

Vulcan em Morretes

Com essa narrativa, relatamos muito pouco de tudo que realmente sentimos nessa jornada inusitada. Viagens como essas fazemos poucas vezes em nossas vidas e sempre garantem lembranças eternas. 

 

Esperamos que a leitura tenha sido boa.   

 

GALERIA DE FOTOS

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Fotos históricas pesquisadas em:

O virtuoso        Cristian Barbosa        História da ferrovia      André Rebouças

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comentários

Jornalista, advogado e editor do Portal D Moto, já foi colaborador da Revista Moto Adventure e do Portal Damas Aladas, trazendo imagens e textos dos mais diversos segmentos do motociclismo, já que pilota há mais 44 anos.

2 Comments

  1. Rodolfo disse:

    Muito Bacana a reportagem ! Bela viagem.
    Parabéns

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